Re: CAMILA AZEVEDO - BONSUCESSO
Enviado: Qua Ago 12, 2026 11:39 am
E lá estávamos nós — eu e o Sucatão — esse monumento ambulante à engenharia vencida, cujo motor provavelmente já deveria estar mumificado e exposto no Louvre, ao lado da Vênus de Milo e de um carburador do século XIX. Mas não. Ele se recusa a se aposentar. O Sucatão tem a obstinação de um velho ator shakespeariano que insiste em interpretar Hamlet aos 87 anos, com artrose avançada e um marcapasso que toca o Hino Nacional toda vez que dá ré.
Saí da bucólica Tijuca e, sem notar, já estava atravessando a Leopoldo Bulhões. Aquilo ali não é rua, é sentença. Manguinhos do lado, cheirando a esperança morta. A direção era Bonsucesso, mas o destino, eu sabia, era o infortúnio. Porque toda noite carioca que começa em Manguinhos e vai dar em Bonsucesso é uma série da Netflix com direito a algum tipo de revelação obscena.
Fui me guiando pelo GPS — que mais parecia um taxista indiano bêbado —, ele indicava a rota como se dissesse: “confia, vai dar certo”.
Ao ver as fotos de Camila, fui tragado por uma decisão infame, sacrílega, mas absolutamente inevitável. Era o meu pecado. Um pecado com nome, carne e dois seios que pareciam esculpidos por um anjo, desses que Deus expulsa do céu por excesso de talento erótico.
Era inevitável. Irrevogável. Eu precisava tocar aqueles seios pequenos, firmes.
Veja bem, eu sei que seios são só glândulas mamárias com marketing. Mas, depois dos cinquenta ou dos sessenta anos, o marketing funciona. E funciona muito. O problema é que, com a idade, o nosso foco se desloca. O cérebro vai ficando mais filósofo, o coração mais cardíaco e a nossa boca termina fazendo mais pelo prazer do que o pênis, que se aposenta precocemente e se recusa a trabalhar, mesmo em regime de home office.
Camila fica num prédio comercial discreto. Ao subir, o porteiro apenas me lançou um olhar. Um olhar cúmplice, quase indecente. Não disse palavra. Não precisava. Naquele instante, compreendi: ele já sabia. Sabia de mim, do meu desejo, da minha infâmia. E, ainda assim, não me julgou. Ou pior: me absolveu com o silêncio. Como se dissesse, sem dizer, que homens como eu — patéticos, vencidos, famintos de carne e afeto — são mais comuns do que se imagina. E que naquele edifício não se entra: se confessa.
Sem os óculos, eu sou um desastre óptico ambulante. Um cego moral, tateando pelos corredores como um pecador em busca do confessionário. Perambulava feito um idiota trôpego, um Mister Magoo dos trópicos sem a leveza da comédia. Havia algo de ridículo, de absolutamente ridículo na minha figura: um homem idoso, míope, suando diante das portas fechadas como quem implora por piedade. E então, como quem descobre a entrada do purgatório, eu a vi. Encontrei a porta. A porta da esperança. Ou da perdição, dependendo do ponto de vista e do grau de miopia.
A porta se abriu. Entrei como quem atravessa o umbral da salvação. Olhei para o lado — e ali estava ela. Uma ninfa. Uma aparição profana, trajando um conjunto de lingerie que parecia ter sido costurado por Lúcifer. Se eu não tivesse exercitado o autocontrole nas últimas décadas, teria gozado ali mesmo. Porque, sim, os velhos não padecem apenas da incontinência urinária. Há também a ejaculação precoce. A última vingança do corpo sobre o desejo.
Camila é muito simpática, falante, daquele tipo de pessoa que faria amizade com um cacto se ficasse tempo suficiente na mesma sala. Me conduziu ao quarto com uma gentileza quase terapêutica. E, o tempo todo, repetia — com uma doçura que beirava a compaixão — que eu não era um idoso. “Você não é velho”, dizia. “Imagina!” E quanto mais ela dizia, mais eu me sentia como uma versão frágil de Matusalém recém-saído de um lar para veteranos da Guerra do Vietnã.
Era como se, a cada elogio, ela estivesse tentando reanimar um defunto otimista. E eu, claro, sorria com a mesma expressão que tenho quando o proctologista tenta puxar assunto durante o exame.
Camila despiu-se com a teatralidade das devassas ingênuas. Saiu da roupa com a agilidade de quem salta de dentro de um bolo — nua, triunfante — numa festa-surpresa organizada pelo Diabo para o chefe do departamento. Diante dela, meus olhos ficaram estáticos, paralíticos, não como quem vê um corpo, mas como quem presencia um milagre indecente estampado na capa de uma revista que deveria ser censurada até para adultos.
Fiquei imóvel, pasmo, sem saber se tocava, se lambia ou se fugia em pânico. Optei por beijá-la. Foi então que conheci o vácuo. Um beijo sem língua, um beijo ausente, um beijo que não beijava. Tentei de novo. O mesmo vazio. A ausência da língua era uma metáfora da minha própria falência.
Perguntei, quase ofendido: “E a língua?”
Camila respondeu com a crueldade leve da juventude:
— A sua língua é muito afoita.
Ah, pobre Camila. Ela ainda não sabe, não compreende, não intui... Que a língua de um velho não é lascívia, é desespero. É uma tentativa, quase comovente, de compensar um pênis que entrou numa fase contemplativa da vida. Um pênis que, se pudesse falar, diria: “Boa sorte aí em cima. Eu tô fora.”
Com a minha perseverança, as coisas começaram a mudar. Os beijos tornaram-se profundos, lúbricos, quase sacrílegos. E então, enfim, a língua dela apareceu. Surgiu excitando-me, saciando-me, perdoando, por instantes breves, toda a minha velhice e a minha decadência.
Mas o que veio depois não foi amor, foi liturgia. Num gesto quase profano, puxei o vibrador de eletrochoque — um instrumento que mais parece saído de um ritual pagão — e o coloquei sobre o clitóris da menina. Sim, menina! Porque havia nela aquela juventude cruel que fere e goza ao mesmo tempo. Ela reagiu ao impacto.
Gemeu. Estremeceu. Contorceu-se como uma serpente em êxtase ou uma histérica em combustão. E então gozou. Gozou como quem confessa, como quem morre um pouco — e me fez cúmplice de um prazer que, para ela, talvez tenha sido apenas instinto. Para mim, foi sublimação.
Deixei que ela se recuperasse — o corpo ainda convulso, o peito arfando como quem e espera o castigo. E então, desci a boca até a sua vagina quente e úmida. O altar do escândalo. Camila recomeçou a se contorcer, a gemer como uma pecadora que reza e goza ao mesmo tempo. Era a oração da luxúria.
Levei meu dedo à entrada do seu cuzinho — aquele pequeno e indecente oráculo que separa o instinto da culpa — e ela estremeceu com mais força. Se incendiou. Ficou mais excitada, mais entregue, mais impura. Gozou novamente. E eu, já sem saber se era homem ou espectro, assisti àquela explosão como se fosse uma benção.
Pedi a Camila que me chupasse e ela me engoliu com a precisão de uma flautista de orquestra alemã. Mas ali não havia música, havia arte — a arte obscena que só as mulheres muito jovens, muito belas e inconscientes da própria habilidade conseguem exercer. E eu, imóvel, trêmulo, sentia-me não como homem, mas como relíquia — um objeto antigo, sagrado, sendo adorado pela última vez antes de ser esquecido.
— Ele tem dificuldade, né? — disse Camila, olhando para o meu combalido Pikachu com a ternura de quem olha um filho débil, abandonado pela natureza. Havia em seu olhar uma piedade maternal, como se visse ali não um pênis, mas um pequeno animal ferido, perdido entre as pernas de um homem vencido pela idade e pelas lembranças.
Camila, porém, não desistiu. Chupou-me com fome e gemia enquanto me chupava. Alternando o boquete com a masturbação, me fez ejacular um batalhão de espermatozoides inúteis para a reprodução da espécie humana. Um exército derrotado, lançado ao mundo sem missão, sem glória, sem descendência.
Conversamos e nos despedimos com a promessa de retorno. Tudo sem presa. Camila valoriza o momento. E eu voltarei. Saí do prédio e decidi ir até a Rio’s. Errei o caminho e me perdi como um velho com Alzheimer. Mas isso é outra história...